Alternativas virtuais para dar visibilidade a pequenos comerciantes ajudam a manter as vendas durante período de isolamento.

Iniciativas de digitalização do comércio informal tem ajudado pequenos comerciandos do Rio a se manter durante a pandemia. Aplicativos, uma “feira virtual” e outras ferramentas estão entre as alternativas.

Lançado em março deste ano, o aplicativo Taali é uma plataforma que oferece espaço para pequenos empreendedores exibirem seus produtos em escala local. O idealizador do app Lauro de Souza, de 36 anos, afirma que a plataforma busca valorizar as figuras de vendedores locais e a compra com afeto.

“Uma das ideias do aplicativo é você conhecer a pessoa com quem está comprando e fortalecer nosso senso de comunidade. A pandemia despertou isso na gente, a importância de estar conectado com o outro. E nada melhor do que comprar com aquela figura conhecida no bairro, aquele vendedor que ‘faz no capricho’ pra gente”, diz o criador da plataforma.

Segundo Lauro, o aplicativo prioriza a proximidade do cliente com o comerciante que vai ofertar o produto.

“As outras plataformas não se preocupam com a questão da distância. Se quiser comer um bolo, vai jogar na internet, mas provavelmente tem alguém que vende isso localmente, talvez mais perto de você, e você nem sabe. Nós tentamos encontrar o produto o mais perto possível. É o que a gente costuma dizer, tem de tudo e tá pertinho, tá ali”, diz ele.

Inicialmente, foi realizado um cadastro com 230 empreendedores dos bairros de Copacabana, Gávea, Leblon e Ipanema, na Zona Sul do Rio.

“Tem de tudo, desde quem vende tapete até vendedor de cachorro quente. Hoje em dia, o carro chefe são as quentinhas. Esse primeiro cadastro foi um estudo de mercado para vermos o que poderíamos oferecer. Como estamos por aqui localmente, conseguimos ter esse contato mais próximo e monitorar o funcionamento do app com mais facilidade”, afirma.

Formado em economia, com mestrado em computação, Lauro conta que percebeu a oportunidade de digitalizar o comércio informal prejudicado pelo isolamento durante a pandemia.

‘’A economia informal ainda está em um estágio pouco digitalizado. Temos um mercado enorme de empreendedores individuais na informalidade, comerciantes de pequeno porte que não têm visibilidade on-line. Ainda trabalham muito no grito, no analógico, com a presença nas ruas apenas. E com o isolamento perderam qualquer chance de gerar renda”, diz ele.

Lauro aponta ainda outros aspectos em que os pequenos comerciantes encontravam dificuldades.

“O próprio formato de compra, por transferência, com o cliente tendo que mandar comprovante, não é nada prático. E o pessoal se virava para cuidar de logística de pagamento e ainda fazer o marketing pessoal. Então o aplicativo chega como uma alternativa para essas questões”, afirma.

A plataforma está começando a trabalhar com entregadores de dentro do próprio aplicativo, mas parte dos comerciantes ainda fica responsável pelo serviço de entrega. O aplicativo está disponível na loja Google Play, para Android, e na Apple Store para iOS.

Feira Virtual

A produtora cultural Eliane Valentim foi responsável pela alternativa digital que auxiliou os expositores da feira O Fuxico no momento em que as exposições ficaram proibidas pelo isolamento social na cidade. A feira de economia criativa era realizada na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na Zona Sul do Rio.

Produtora da feira há cinco anos, Eliane procurou formas de ajudar os expositores que tiveram as vendas reduzidas a zero. Por meio das redes sociais, ela conseguiu criar uma “vitrine virtual” para os pequenos comerciantes.

“No início tomei um baque, fiquei meio sem saber o que fazer. Depois de um tempo tivemos que nos mobilizar. Imaginamos que em maio já ia dar para voltar, mas não se concretizou. Então tivemos que ir para o digital. O comportamento dos clientes mudou e as compras iam começar a ser no digital”, diz a produtora cultural.

Ela conta que fez cursos de marketing digital gratuitos na internet e passou a compartilhar o conteúdo com os expositores da feira.

“Eles não tinham isso muito desenvolvido. Raríssimos eram os que tinham rede social atualizada. Então comecei a dar essas dicas de redes sociais. E por outro lado, o nosso público estava carente dos produtos artesanais, de locais de venda desses produtos, como as galerias, exposições”, diz ela.

A principal ação nas redes foi o “Fuxicolab”, uma ação colaborativa com a participação dos expositores.

“Toda quinta-feira, fazíamos um post sobre um expositor, na sexta a gente impulsionava a postagem, patrocinava esse expositor e no fim de semana fazíamos uma live com ele, mostrando os produtos dele. Tivemos 200 expositores participantes”, conta.

Ela diz que, para os pequenos comerciantes, a experiência foi um sucesso.

“Foi ótimo, porque além de terem aprendido as dicas do digital, eles tiveram retorno de venda, ganho em seguidores, em aumento da visibilidade da marca. E eles não sabiam impulsionar posts, por exemplo, e quando a gente faz isso, consegue direcionar para um público específico e gerar um retorno melhor para o comerciante”, afirma a produtora.

Durante a flexibilização do isolamento em outubro do ano passado, a organização conseguiu realizar três edições da feira. Com a volta das restrições este ano, a rotina de postagens nas redes sociais voltou.

Uma das ações no período foi a realização de uma live, ao longo de todo um fim de semana, com a participação de qualquer comerciante que se interessasse em mostrar seus produtos por 30 minutos.

Atualmente, as atividades virtuais diminuíram já que as feiras voltaram a ser liberadas. No entanto, no caso de O Fuxico, a produtora afirma que as regras da prefeitura têm inviabilizado a realização da feira.

“O Fuxico em Ipanema tem 110 expositores e acontece em um fim de semana a cada dois meses. Agora só pode ser em um dia do fim de semana. E do jeito que pode, não conseguimos sustentar, porque só podemos colocar 50 expositores. Com essa quantidade não dá para arcar com as despesas”, diz Eliane.

A partir da experiência com a “vitrine virtual”, a produtora afirma que pretende criar também um market place para a feira.

“Como a feira não tem frequência, é apenas uma vez a cada dois meses, quero criar um local onde os clientes consigam acessar nossos produtos mesmo quando não estamos expondo presencialmente”, diz ela.

Outra iniciativa que vem facilitando a automatização do comércio local é a Zestt Tecnologia, que oferece softwares para pequenos e médios comerciantes conseguirem transformar o negócio em uma loja virtual.

Com o uso da plataforma de gestão administrativa e financeira, o dono da empresa pode acessar os dados na nuvem de qualquer dispositivo de internet.

Segundo Gino Santoro, da Zestt desenvolvedora, com o uso da tecnologia é possível aumentar a produtividade e eficiência dos negócios, além de gerar uma redução significativa de tempo e custos com atividades de suporte físico.

“Apesar dos impactos da pandemia no mercado brasileiro e mundial, as empresas de tecnologia caminham para uma forte recuperação em 2021, e o Rio de Janeiro vem refletindo isso”, afirma Santoro.

A empresa auxiliou, por exemplo, uma padaria que gerava filas ao realizar as vendas e não tinha baixa automática no estoque. Além disso, precisavam de uma loja virtual para vender pizzas e outros itens.

Outro comércio local automatizado pelos softwares da desenvolvedora foi um mercadinho que não conseguia fechar o caixa diário, receber compras com agilidade e nem controlar o estoque de forma automatizada.

fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/09/iniciativas-digitais-incentivam-comercio-local-no-rio-durante-a-pandemia.ghtml